sábado, 13 de novembro de 2010

Evolução da Páscoa até o tempo de Jesus

A fim de compreender Jesus, em particular no momento de sua última refeição com os discípulos, é necessário mergulhá-lo em suas raízes. Cada vez mais a pesquisa mostra o quanto Jesus se inscreve numa história e numa cultura, sem a qual fica ininteligível. O mesmo acontece com a eucaristia instituída por Cristo e praticada pelos primeiros cristãos.

• Pré-história da Páscoa

A narrativa da Páscoa pode ser lida em dois lugares da Bíblia: Ex 12,1-20 e Dt 16,1-8. Escrita muito tempo depois dos acontecimentos, com certeza durante o exílio, essa narrativa comporta diversas camadas.

Atualmente a maioria dos exegetas estão convencidos de que a festa da Páscoa não começou de modo absoluto no Êxodo, mas que, nesses momentos históricos, revesti-se de uma nova significação. Existia provavelmente, no tempo dos patriarcas, uma festa que já se chamava pesah: quando os nômades, na primavera, se preparavam para deixar seus acampamentos, em busca de outras pastagens, ofereciam às divindades um sacrifício para pedir a fecundidade para os rebanhos e, de modo mais geral, a proteção contra os poderes “exterminadores” simbolizados pelo “flagelo destruidor” (Ex 12,13). Os seres mais ameaçados eram os recém nascidos que, pela primeira vez em as vida, empreendiam uma viagem uma tanto arriscada. Então, para conjurar a violência ameaçadora, separava-se um desses animais nascidos a pouco, a fim de lhe conferir o poder sagrado, e depois o chefe da família o imolava. O sangue do animal servia de sinal de reconhecimento para o flagelo destruidor, que poupava as tendas marcadas com o sangue do animal: essa talvez, a origem da palavra “páscoa”; com efeito, em hebraico existe um verbo pesah  que significa “mancar”, portanto, “saltar” por cima das tendas e “poupar”.

Todos os anos, à volta da primavera, os hebreus repetiam o rito herdado de seus antepassados. Mesmo quando deixaram de ser nômades, em particular durante a longa estada no Egito, conservaram essa prática evocadora de sua infância e que consolidava a sua identidade. Os descendentes dos patriarcas, oprimidos, tornados escravos, ligam-se novamente às suas raízes reproduzindo o rito dos antepassados.

A história

Certo ano, pelos meados do século XIII antes de Cristo, esta festa assumiu um aspecto completamente novo que se tornará, na memória de Israel, um verdadeiro começo e apagará quase de todo os vestígios do primeiro rito.

Naquele ano a saída devia ser sem retorno, início de uma nova aventura, a caminhada para a terra prometida. Doravante é a saída do Egito que celebrarão, isto é, um acontecimento histórico, e não mais o ciclo da primavera. Da primeira festa, subsistirão muitos elementos: a época (primavera), as rubricas e detalhes (animal sacrificado, alimento, rito do sangue); o que mudará é essencialmente o sentido: a referência à entrada histórica de Deus na história de um povo. A partir de então, páscoa é o rito fundador, pelo qual, todos os anos o povo de Israel celebra a saída do Egito, a passagem da escravidão para o serviço de Deus, da morte para a vida.

• A releitura

A narrativa do Êxodo sobre a Páscoa não tem como primeira função a de ser um relato histórico. Sua função não é de contar detalhadamente o que aconteceu na famosa noite em que Israel saiu do Egito, mas como os judeus celebravam esse acontecimento: essa narrativa é uma narrativa litúrgica.

Esta particularidade litúrgica transparece na serenidade do tom, nada é deixado ao acaso: o tempo de separar o animal é preciso; sua dimensão também, assim como o número dos participantes, o que se deve comer, e como... Numa palavra, rubricas litúrgicas que refletem um tempo muito longínquo.

Em ambos os relatos da páscoa, a festa de pesah acha-se estreitamente associada à festa dos ázimos (os pães sem fermento). Na origem das duas festas não havia nenhuma relação entre elas, sendo a primeira um rito de nômades e a segunda uma prática ligada à população agrícola e sedentária, que queria garantir a proteção das divindades responsáveis pela prosperidade do solo. Com sua espantosa capacidade de assimilação crítica, Israel adotará esta festa conferindo-lhe uma nova significação. Situada aproximadamente no mesmo período que a páscoa, acabará por fundir-se com ela, a fim de se tornar, com ela, um memorial da saída do Egito.

Quatro seriam os motivos para a unificação destas duas festas:

1. Um motivo de local: ao entrar na terra prometida, Josué oferece a páscoa que dá término ao Êxodo.

2. Um motivo de data: a páscoa nômade cai no dia 14 de Nisan, quer dizer, pouco antes, durante, ou logo após os sete dias da festa sedentária dos ázimos.

3. Um motivo histórico: desde a época dos reis, a obrigação de subir ao Templo de Jerusalém para a festa dos Ázimos ofusca a Páscoa, celebrada em família. Sob Josias em 622 a.C. a redescoberta da Lei confere novo rigor à páscoa: a celebração de Josias no Templo não menciona os ázimos. Ambas as festas vão se encontrar numa mesma semana festiva.

4. Um motivo simbólico: tudo indica que a festa pascal tenha mudado o sentido da festa dos Ázimos, ali introduzindo a referência do Êxodo.

• De Josias a Jesus

Estamos habituados a ouvir dizer que a páscoa é a festa central no Antigo Testamento; ora, quando se percorre a Bíblia, constata-se que raramente é mencionada a celebração da Páscoa. Quando os hebreus atravessam o Jordão (Js 5, 10-12), recebem a circuncisão e celebram a páscoa; depois disso, há um prolongado silêncio, talvez devido ao caráter familiar e local desta festa da páscoa? Este gênero de celebração pertence à crônica familiar.

Importante guinada é devida ao rei Josias. Graças ao segundo livro dos Reis capítulos 22 e 23. Durante os trabalhos de reconstrução do Templo, os operários encontram por acaso um livro no qual se reconhece o núcleo do Deuteronômio. Josias descobre neste livro um ambicioso programa de reforma religiosa, resumido em três termos: um só Deus, um só povo, um só santuário. A centralização do culto ficará estabelecida, durante mais de 650 anos, até o fim de Jerusalém, em 70 d. C. O próprio Jesus celebrará a páscoa dentro do quadro imposto por Josias. É importante ter isso em mente se quisermos compreender o sentido da última refeição de Jesus e de sua morte.

  • Eucaristia na Bíblia, Cadernos Bíblicos, Ed. Paulus, 1985

Ir Franklins Marques Torres, NJ (Noviço do Instituto Religioso Nova Jerusalém e Graduado em Licenciatura em Química pela Univercidade Federal do Ceará)

sábado, 9 de outubro de 2010

SEXUALIDADE E AFETIVIDADE

Ø  SEXUALIDADE
Ao criar a humanidade sua imagem, Deus inscreveu no homem e na mulher a vocação e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. A sexualidade afeta todos os aspectos da pessoa humana, em sua unidade de corpo e alma. Diz respeito particularmente à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de uma maneira mais geral, à aptidão de criar vínculos de comunhão com os outros. Cabe a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar sua identidade sexual (Catec. 2332-33; Gn 1, 27-28).

O Magistério da Igreja nos ensina que é Deus quem nos mantém vivos e nos santifica com todo o nosso ser, inclusive nosso corpo, e que cria uma alma unicamente para nós no momento de nossa concepção. Corpo e alma formam um todo inseparável e orgânico. Em nosso corpo, vivemos a vontade de Deus expressa em nossa identidade mais profunda. Nosso corpo jamais tem por finalidade ele mesmo, mas sempre Deus e os outros (Rm 12, 1).

O nosso corpo exprime nossa identidade sexual. Exprime nossa masculinidade ou feminilidade através dos gestos, da voz, da expressão corporal, do comportamento, das formas de relacionamento, das reações típicas de cada sexo, dos órgãos reprodutores, dos hormônios.

Para a pessoa humana, ser fecunda, crescer e multiplicar-se é fruto de um ato livre da vontade, de uma amorosa e livre adesão à vontade de Deus a cerca de seu próprio corpo e de sua participação na criação.

Vemos que a confusão de entendimento por vezes existente entre sexualidade (característica da personalidade masculina ou feminina como um todo) e exercício da genitalidade (relacionamento sexual) é profundamente limitante do conceito mais amplo do que seja sexualidade. Esta nos foi dada para a comunhão interpessoal para o “ser para o outro” como as três Pessoas da Santíssima Trindade.

Nossa sexualidade tem um papel fundamental em tudo o que somos, pensamos, fazemos e na maneira como existimos, pensamos, sentimos e agimos (é importante destacar que não tem nada a ver com as teorias de Freud). Em nossa história da salvação pessoal, em nível de autoconhecimento e auto-identificação, é imprescindível que tenhamos uma identidade sexual coerente e bem definida, pois é como homem ou mulher que nos relacionamos com a criação, com os outros, com nós mesmos e com Deus.

Ø  AFETIVIDADE
Nascemos para “ser amor”. A vida afetiva é a dimensão psíquica que dá cor, brilho e calor a todas as vivências humanas. Sem afetividade a vida mental torna-se vazia, sem sabor. A afetividade é uma experiência íntima que afeta a totalidade da pessoa e por isso mesmo, recebe o qualitativo de afetiva.
Há cinco tipos básicos de vivências afetivas:
·         Humor ou estado de ânimo
É definido como o tônus afetivo do indivíduo, o estado emocional basal e difuso no qual se encontra a pessoa em determinado momento.
·         Emoções
As emoções podem ser definidas como reações afetivas agudas, momentâneas, desencadeadas por estímulos significativos.

·         Sentimentos
Eles são estados e configurações afetivas estáveis. Os sentimentos estão geralmente associados a conteúdos intelectuais, valores, representações e, no mais das vezes, constituem fenômenos muito mais mental do que somático.
Pode-se ainda classificá-los em grupos:
o   Sentimentos na esfera da tristeza;
o   Sentimentos na esfera da alegria;
o   Sentimentos na esfera da agressividade;
o   Sentimentos relacionados à atração pelo outro;
o   Sentimentos associados ao perigo;
o   Sentimentos do tipo narcísico.

·         Afetos
Defini-se afeto como a qualidade e o tônus emocional que acompanha uma idéia ou representação mental. Os afetos acoplam-se às idéias, anexando a elas um “colorido” afetivo. Elas seriam, assim, o componente emocional de uma idéia.

·         Paixões
A paixão é um estado afetivo extremamente intenso, que domina a atividade psíquica como um todo, captando e dirigindo a atenção e o interesse do indivíduo em uma só direção, inibindo os outros interesses.

É preciso deixar claro que as vivências afetivas são AMORAIS. Isto é, em si mesmas não são nem boas nem más. O que será “bom” ou “mau” é amaneira como lidamos com eles. Algumas vezes confundimos vivência afetiva e pecado. Naturalmente, há emoções e sentimentos carregados de positividade e outros carregados de negatividade. No entanto, não significa que experimentar emoções, sentimentos seja “bom” ou “mau”, “pecado” ou “virtude. Isso vai ser determinado pelo que fazemos deles, pela forma como os utilizamos ou canalizamos.


(Sintetizado por Ir. Franklins de Jesus Palavra-Hóstia, NJ (noviço) a partir dos livros Tecendo o Fio de Ouro e Jovens em Renovação espiritualidade, afetividade e sexualidade, respectivamente de Maria Emmir Nogueira e Pe. Alírio Pedrini, SCJ).

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A importância do ensino religioso na educação

Este tema é bastante interessante para a discussão entre professores, diretores pedagógicos de instituições de ensino e estudiosos na área da educação. Muito pelo contrário, estamos, todos nós, envolvidos na dinâmica educacional como sujeitos sociais, já que formamos um conjunto de sociabilidade, que envolve o constante processo de educação entre crianças, jovens, adultos e idosos.
É preciso entender que educação é um conceito inerente ao ser humano e a sua disposição de percepção do mundo e dos valores de outras pessoas e todas as vivências sociais e culturais que transitam nos relacionamentos interpessoais em uma sociedade. Bem diferente da idéia de educação que sempre tivemos em que o conceito foi reduzido a uma prática que repassa conteúdos de diversas disciplinas para um grupo de pessoas entre quatro paredes, sabe-se que essa estrutura se refere à condição de mercadoria da educação, que se transformaram as práticas educacionais.
Quando se vende a educação, vendem-se apostilas, livros didáticos, fardamento, material escolar, as horas de aulas dos professores e toda a estrutura física do colégio. O ensino público, de hoje, é uma conseqüência do que sobra desse sistema. Prestemos atenção na expressão: “o que sobra”. Percebemos que não ocorre a venda da educação, mas acontece a distorção dos fatos ou a dissimulação de um ensino que quer mostrar para a sociedade que é de qualidade, com a ajuda da mídia governamental, porém que esconde interesses políticos.
A educação no nosso país reflete nossa sociedade e vice-versa. Muitos não sabem que os valores de cidadania, deveres e responsabilidades sociais, respeito ao próximo, a busca da vivência da fé que esteja de acordo com a consciência do grupo, o desenvolvimento afetivo-cognitivo e emocional são formas de educação. É a educação integral, que visa o amadurecimento integrante e sempre inacabado do homem e da mulher.
Esse processo gradativo da educação é prioridade dos pais. É dentro das famílias que a importância da educação é mais esperada, pois os valores que são assimilados pelos filhos, quando pequenos, são as engrenagens principais norteadoras para o desenvolvimento equilibrado do indivíduo e da sociedade. Não é a escola a grande responsável pelo desenvolvimento educacional das crianças. E por essa afirmação, não se pode justificar sua ineficiência, frente a um contexto cultural pós-moderno massacrante, que visa o lucro desenfreado, as modas e a fugacidade dos estilos de vida. Deve haver uma complementaridade dos dois pólos, escola e família, para ajudar na construção de consciências sociais e pessoais sadias.
Nesse contexto, quero ressaltar que valores se referem ao que temos de mais pessoal, de mais precioso e que levaremos até o fim da nossa vida, para semearmos o amor e a concórdia. O ensino religioso sério e coerente proporciona os mecanismos para ajudar crianças e adolescentes a desenvolverem suas potencialidades pessoais, a convivência sadia com o próximo e principalmente, a vida interior com Deus, nosso pai e criador de todas as coisas.
Há algum tempo, o ensino religioso foi perdendo sua importância nos estabelecimentos de ensino primário e fundamental. Hoje, de acordo com o sistema de ensino, ficou facultativo o ensino nas salas de aula dessa disciplina. Os órgãos gestores administrativos e educacionais estão proliferando a idéia do estado laico, onde nas escolas e faculdades não será permitido mencionar conteúdos de determinada religião ou exibir imagens, quadros ou frases que remetem a expressão religiosa. Percebe-se, com essa atitude, o empobrecimento da cultura e do conhecimento do que é ser religioso, ou seja, da noção de sermos religados a Deus.
O ensino religioso não se limita em catequizar somente. O professor, o mestre dessa disciplina tem que ser consciente do seu papel como cristão batizado, que possui a capacidade de ensinar com a vida os valores do evangelho, as experiências próprias de fé, que enriqueçam a vida das crianças e adolescentes. É o ensino que não passa, mas marca a vida de quem apreende e percebe o afloramento de verdadeiros valores durante as fases da vida, no que se refere ao sentido do sagrado, do humano e do social.
A criatividade no aprendizado é fundamental. Falar de Deus não é o bastante, mas indicar Deus, mostrar com simplicidade, através de instrumentos e recursos pedagógicos a essência do ser humano proporciona a descoberta da verdade, dos valores eternos, que constrói homens e mulheres cientes do seu papel de cristãos e cidadãos.
Devemos começar a discutir com bastante “clareza” o que significa as expressões e sua vivência na sociedade atual: DEUS, FAMÍLIA, EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E VALORES.

Edmilton de Almeida Lima
Postulante do Instituto Religioso Nova Jerusalém e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará.

domingo, 19 de setembro de 2010

A ORDEM DE SÃO JERÔNIMO (OSH)

A Ordem de São Jerônimo (Ordo Sancti Hieronymi, OSH) é uma ordem religiosa monacal de orientação exclusivamente contemplativa originada no século XIV, fundamentada nos escritos de são Jerônimo. Prescrevendo uma vida de solidão e silêncio, oração assídua e penitência, a OSH busca levar seus monges à união com Deus, consciente de quanto mais intensa for essa união, por sua própria doação na vida monástica, tanto mais esplêndida se faz a vida da Igreja e mais vigorosamente se fecunda seu apostolado. A vida do monge Jerônimo é pautada pelo equilíbrio entre a oração e o trabalho.

No século XIV diversos grupos de homens da Espanha, motivados pelo exemplo de vida e santidade de são Jerônimo, buscaram uma vida de maior perfeição cristã.

Deste desejo de reformas, numa época conturbada e decadente, surgiu a Ordem de São Jerônimo. Por toda a Península Ibérica surgem homens que abraçam a vida eremítica, buscando imitar são Jerônimo. Dentre eles destacaram-se Pedro Fernandez Pecha e Fernando Yañez de Figueiroa, que, após vários anos de experiência eremítica, concluíram ser melhor a vida cenobítica, com a adoção de uma regra.

Em 18 de outubro de 1373, o Papa Gregório XI lhes faz a ereção canônica, com o nome de Irmãos de São Jerônimo, outorgando-lhes a Regra de Santo Agostinho. Desde então buscaram aqueles homens estabelecer um monacato regular, o que foi alcançado em 1415, com a união da ordem, quando já possuíam vinte e cinco mosteiros.

No século XIX, a Ordem já possuía quarenta e oito mosteiros e cerca de mil monges, quando advindo da Revolução Liberal, os religiosos se viram obrigados a abandonar seus mosteiros, sendo que alguns se arruinaram, outros foram passados à outras ordens da Igreja, e outros ainda reduzidos ao uso leigo. Em 1925 foi expedido pela Santa Sé um rescrito de restauração, que se iniciou pelo mosteiro de Santa Maria del Parral, em Segóvia. Com a proclamação da restauração, o que se complicou ainda mais com a Guerra Civil Espanhola, entre 1936 e 1939. Somente após o Governo Geral de 1969 é que se pode efetivar definitivamente a restauração. Presentemente, há dois mosteiros da Ordem na Espanha: Mosteiro de Santa Maria del Parral e Mosteiro de São Jerônimo de Yuste, em Cáceres.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Jesus é o Senhor
(Serás inteiramente do Senhor teu Deus)

Dt 6, 4-5 (SHEMÁ):
O ato de fé do povo de Deus é um ato de obediência ao Senhor que o escolheu, gratuitamente por amor, dentre todos os povos para servi-Lo.
Obedecer, vem do latim ob audire que significa escutar, dar ouvidos. Nas Sagradas Escrituras, escutar não é uma atitude passiva, mas colocar em prática o que se ouve.
No versículo 4 está a maior afirmação do credo judaico: Deus é UM (ehad). Existe apenas um Deus e tudo aquilo que se coloca no lugar desse Deus é um falso deus, sendo uma idolatria.

O MALIGNO
As Sagradas Escrituras sempre deram testemunho de uma ação contrária à de Deus. Ao longo do tempo e evolução da Escritura e do pensamento do povo de Deus, fica claro que não é apenas uma “força” que atua contra Deus e os seus filhos, mas uma pessoa, que a Bíblia chama Satanás, (do hebraico satan) adversário ou delator.
O Catecismo da Igreja Católica afirma a existência desse ser pessoal que é inimigo de Deus e dos homens (Catec. 391 – 395; 2851). Negar a existência do Demônio é ir contra a Doutrina. Desde o início da história humana ele emprega-se em fazer o homem perecer (cf. Gn 3; Jo 8, 44; 1 Jo 3,8).

SUA AÇÃO
Sua ação consiste em deturpar as coisas boas e fazer passar por boas as que, na realidade, são más (cf. Is 5, 20).
É necessário renunciar a toda obra associada direta ou indiretamente ao Demônio. A Fé deve ser única e íntegra, todo sincretismo fere a pureza da fé (cf. Dt 18, 9-14; At 19, 18-20; Tg 4,4; Catec. 67b).

RENÚNCIA
É urgente a renúncia total e radical à Satanás para viver na liberdade de filhos de Deus (cf. Tg 4,7).
A renúncia a Satanás deve ser livre e consciente. É uma luta declarada contra o Mal e suas obras. A renúncia supõe declarar-se submisso inteiramente ao senhorio de Jesus. Só aquele que se coloca sob o senhorio de Cristo pode resistir ao Demônio e ser libertado do poder das trevas (cf Tg 4,7-10).
É apenas revestido do poder de Deus que se pode resistir a Satanás e declarar o senhorio de Jesus sobre si (cf. 1 Cor 12,3).

CONCLUSÃO
Nossa fé enfrenta, especialmente na atualidade, muitos obstáculos à sua vivência plena, no entanto, “Aquele que está em vós é maior do que o que está no mundo” (cf. 1 Jo 4,4).


[Adaptação feita por Ir. Franklins de Jesus Palavra-Hóstia, NJ (noviço), da apostila Seminário de Vida no Espírito Santo I da Editora RCC Brasil]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ir. Franklins Marques Torres, NJ (noviço)

1. AUTOR
O livro dos Atos dos Apóstolos forma uma obra única com o terceiro Evangelho. Isso pode ser atestado pela unidade literária e teológica . O autor dos Atos se propõe a fazer um resumo da “história das primeiras comunidades cristãs”. Entretanto, quando se fala de “história” não se deve entender como uma obra como conhecemos na modernidade, mas como fatos interpretados à luz da fé no Cristo. O presente trabalho se propõe expor o pensamento atual a respeito dessa obra fundamental na fé das primeiras comunidades cristãs e também na nossa vivência atual do cristianismo.
A tradição da Igreja identifica o autor deste livro, assim como o do terceiro Evangelho, como sendo Lucas, companheiro de Paulo durante e cativeiro e em algumas de suas viagens (Cl 4,14; Fm 24; 2Tm 4,11; At 16,10). Não temos algo seguro a respeito do autor. O que se tem é o que o próprio livro dos Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo nos oferecem, sabe-se, no entanto, que era médico (Cl 4,14). Sua data de composição não é precisa, entretanto, só se pode pensar que seja após a do terceiro Evangelho (Cf. At 1,1), ou seja, por volta do ano 80 d.C. Já por volta de 200 d.C. esta obra já era bem conhecida em toda a Igreja, tendo-o como norma de verdade e de fé. Muito cedo, aliás – ao mais tardar no século IV –, os Atos já eram lidos na liturgia eucarística no tempo pascal. Observamos que este livro influenciou e continua a influenciar muitos cristãos no desejo de volta às origens do cristianismo.
Com o esquema a seguir, podemos ver que o livro dos Aos dos Apóstolos é um complemento do Evangelho de São Lucas.


* Batismo no Espírito e fogo;
– Lc 3,16 / At 2,1-14.

* Descida do Espírito;
– Lc, 21s / At 11,16.

* Centurião romano;
– Lc 7,1-10 / At 10.

* Ressuscita uma menina (aqui ressurreição temporal);
– Lc 8,49-56 / At 9,36-42.

* Visão gloriosa, transfiguração;
– Lc 9,28-36 / At 7,55s; 9,4ss.
* Tempestade acalmada;
– Lc 8, 22-25 / At 27, 13-26.

* Subida de Jerusalém;
– Lc 9, 31-51 / At 19, 21; 21, 15.

* Processo e morte de Estevão; não podem resistir-lhe;
– Lc 21, 15 / At 6,10.

* Perante o grande conselho;
– Lc 22, 15 / At 6, 12s.

* Pede perdão pelos inimigos;
– Lc 23, 34 / At 7, 60.


2. OBJETIVO E CONTEÚDO
No seu Evangelho, Lucas preocupou-se em mostrar que Deus visitou o seu povo no Cristo Jesus, segundo as Escrituras. Em todo o Evangelho, Lucas descreveu a missão do Messias como uma grande subida para Jerusalém, a cidade do Deus Altíssimo, centro da fé judaica. Sendo então uma continuidade do seu Evangelho, Lucas, estrutura os Atos dos Apóstolos como um complemento dessa idéia de universalidade da salvação. Assim como em Jesus todas as promessas foram cumpridas (Lc 3–24), depois da Páscoa e do Pentecostes, é o tempo do testemunho universal sob o impulso do Espírito Santo (At 2). Agora, de Jerusalém, sai a mensagem de salvação a todos os povos (Is 2,3; At 1,8).
Uma preocupação dos Atos é a propagação da Palavra (At 5,42; 6,7; 8,4.25; 9,31; 12,24; 13,49; 15,36; 19,20; 28,31), que é o testemunho fiel do Cristo ressuscitado, primeiro por meio dos Doze, testemunhas visíveis da missão de Jesus (1,2). Depois outros, ocupando o primeiro plano do livro, Paulo, participam desse anúncio da Palavra. Para Lucas, a pregação da Palavra deve levar os ouvintes da mesma, à conversão, a crer no Senhor Jesus Cristo, em quem está a salvação (4,12). Nos Atos dos Apóstolos, a iniciação cristã se dá em duas etapas: batismo em nome de Jesus para o perdão dos pecados (2,38) e imposição das mãos para receber o dom do Espírito Santo (6,6; 19,1-6).
Outro tema caro a Lucas nos Atos dos Apóstolos é a Igreja. A palavra Igreja vem do grego ekklèsia, que biblicamente designava a assembléia do povo de Israel, especialmente no deserto. Com isso, os Atos dos Apóstolos mostra que a Igreja é o novo e único povo de Deus, adquirido com o seu próprio sangue (20,28); são admitidos a esse número os que aceitam Jesus como o Senhor, circuncisos e inciscusisos, sendo batizados no nome de Jesus. Portanto, rejeitar a Igreja é excluir-se da salvação dada por Jesus através da mesma (2,47; 5,14; 16,5). Para os Atos dos Apóstolos, a comunidade primitiva é o modelo para todos os que abraçam a Fé. Esse alcance rompe os limites de tempo e espaço, pois a Igreja é o “hoje” da salvação para todos os homens. Por isso o centro da teologia dos Atos é a universalidade da salvação (1,8; 2,10; 10,01; 11,19; 15,01; 17,31; 28,31).
Finalmente, o que podemos destacar ainda na teologia do livro dos Atos é a passagem da salvação do judaísmo ao cristianismo, da lei à fé (15,1.5.9.11). Entretanto não se pode entender essa passagem como um rompimento, como declarará Paulo ao governador Félix, ao contrário é a única maneira de permanecer firme à esperança de Israel (26,22). Nem por isso os judeu-cristãos não abandonaram as práticas judaicas, a lei e a circuncisão – aliás, muitos queriam impor o mesmo aos cristãos oriundos do paganismo. Paulo foi um apaixonado defensor dos pagãos neste ponto, entretanto, ele mesmo se mostrava fiel observador da Lei (16, 3; 21,26; 22,17).
Para Lucas esse Israel, beneficiário das promessas em Jesus, tem o dever de abrir-se às nações de uma maneira não entendida por eles. Sendo assim, os Atos colocam o próprio Deus intervindo nesse ponto: o episódio de Cornélio (10). Ainda assim alguns interpretaram esse fato como uma exceção. Todavia, para Lucas essa foi a solução e menciona com vigor a vitória nessa questão no Concílio de Jerusalém (15,4-29).
Abaixo está mais bem esquematizada a estrutura do livro dos Atos dos Apóstolos:

I. Introdução: o encargo do anúncio dado aos Apóstolos (1,1-26).

II. O testemunho dos Apóstolos em Jerusalém (2,1–5,42).
• Efusão do Espírito Santo e início da missão (2,1-41).
• Palavras, milagres e perseguição (3,1–4,31).
• A vida em comunidade (2,42-47; 4,32–5,42).

III. O testemunho sobre Cristo sai de Jerusalém e toma o rumo dos pagãos (6,1–15,35).
• De cristãos gregos para judeus gregos (Estevão, Filipe e os helenistas) (6,1– 8,40).
• A conversão de um grande perseguidor: Paulo (9,1-31).
• Pedro missionário é a presença da Igreja entre os pagãos (9,32–11,18).
• A missão dos helenistas em Antioquia (11,19-30).
• A perseguição de Herodes Agripa I à obra (12,1-25).
• Um passo desde Antioquia: a viagem missionária de São Paulo e Barnabé e a adesão de judeus e gentios (13,1–14,28).
• Os conflitos de tendências e o Concílio de Jerusalém (15,1-35).

IV. O caminho do testemunho sobre o Cristo até os confins da terra (15,36–28-31).
• A segunda viagem missionária de Paulo (15,36–18,22).
• A terceira viagem missionária de Paulo (18,23–21,14).
• Prisão de Paulo em Jerusalém (21,15–23,35).
• Prisão de Paulo em Cesaréia (24,1-26).
• A viagem a Roma (27,1–28,16).
• A pregação de Paulo em Roma (28,17-31).

Tabela 2.1.
1 – 12:
A Igreja de Jerusalém e as primeiras missões – parte petrina.
13 – 15:
Antioquia Paulo e Barnabé Concílio de Jerusalém Tiago e Pedro.
16 – 28:
De Antioquia a Roma – parte paulina.

3. QUESTIONAMENTO
Após essa reflexão e discussão a respeito desse precioso livro da Sagrada Escritura, ainda nos surgem questionamentos. Este trabalho não se propõe a solucionar problemas, nem tão pouco dar respostas definitivas. Gostaria aqui de dar inicio a uma pequena discussão: Seria Atos dos Apóstolos o nome mais adequado deste livro?
Se observarmos melhor a estrutura da obra de Lucas percebemos uma personagem que se destaca entre todas: Paulo. Este Apóstolo aparece primeiramente no capítulo sete, no martírio de Estevão (7,58), daí então praticamente toda a narrativa gira em torno de Paulo – primeiramente Saulo. Algo que também notamos claramente é a importância dada à sua conversão, que é narrada três vezes (9,1-19a; 22,5-16; 26,9-18). Para Lucas ainda o Apóstolo Paulo é o modelo de Igreja missionária, falando de três viagens para anunciar a palavra de salvação (13–14; 15,36–18,22; 18,23–21,17 respectivamente). Outra consideração é a respeito da relação do autor com Paulo. Como vimos Lucas era companheiro do Apóstolo, tendo bastante base pessoal para escrever sobre ele com paixão de discípulo fiel ao mestre. Podemos observar traços claros da teologia e termos paulinos na obra dos Atos dos Apóstolos.
Tendo exposto estas particularidades deste livro, propomos ainda uma leve mudança no título desta obra. Deixamos claro que é uma mera sugestão, sem pretensão nenhuma, apenas uma opinião pessoal baseada nas observações feitas acima. Um título que poderíamos dar a este livro seria: “Os Atos de Paulo”.

4. CONCLUSÃO
Ao estudarmos esta obra-prima da literatura do primeiro século, percebemos a grade influência da mesma na vida das primeiras comunidades cristãs. Especialmente a figura do grande missionário, Paulo de Tarso. Também não podemos deixar de destacar com que grande força este livro impulsiona tantas comunidades e movimentos na Igreja de hoje a buscar o ideal da Igreja primitiva. Cabe a Igreja de hoje o fiel seguimento da Palavra de Deus, sob o impulso do Espírito Santo, “até as extremidades da Terra”, para que todos, sem exceção, alcancem a salvação em Cristo, cumprimento da Promessa do Pai.

5. BIBLIOGRAFIA
• BÍBLIA SAGRADA Tradução da CNBB; 6ª Edição; Edições CNBB, Brasília-DF; Editora Canção Nova, São Paulo-SP, 2007.
• BÍBLIA DE JERUSALÉM; Editora Paulus, São Paulo-SP, 2004.
A BÍBLIA TEB; Edições Loyola, São Paulo-SP, 1994.

sábado, 21 de agosto de 2010

Empecilhos para a cura

O QUE IMPEDE A GRAÇA DE DEUS ACONTECER?

O que seria uma barreira para Deus não agir? Então é isso que nós queremos hoje refletir nessa palestra: Os preconceitos, os empecilhos, as barreiras contra a cura.
Antes, é importante que se fale de pontos que geram confusão no entendimento da ação de Deus entre nós.

1. Deus não nos cura porque não quer nos salvar
Quando nós dizemos que Deus não quer nos salvar estamos enganados. Isso é uma barreia para a cura acontecer (Is 53, 4; 1 Pd 2, 24s).

2. O pecado é para a glória de Deus
A nossa luta contra o pecado, é ela que vai expressar a glória de Deus e não o nosso pecado.

3. Ficar acomodado com o pecado
Nós não devemos ficar acomodados com o nosso pecado, nem com a nossa doença, ou seja, se eu adoeço não posso ficar acomodado com a minha doença, tenho que procurar a cura. Da mesma forma também não posso descuidar da minha saúde.

4. Achar que os prodígios são coisas do tempo apostólico
A nossa Igreja é carismática. Só podemos dizer que as curas e os milagres são do passado, no dia em que a Igreja não existir mais. O Espírito Santo age aqui e agora.



ATITUDE DO MINISTRO DE CURA E LIBERTAÇÃO.

Da mesma forma que não devemos tolerar o pecado, também não devemos tolerar as doenças. Aceitar a doença é uma coisa, querer a doença é outra coisa. A doença é um mal. Deus não quer o mal do ser humano. Ao visitar um doente, ou quando também nós estivermos doentes, não devemos logo pedir a cura, mas questionar como permanecer fiel mesmo na doença. E a partir disso, orar. O fato de não pedir logo a cura não é que você não queira, mas você deve demonstrar primeiro um ato de fé, porque sem fé não se pode ser curado.
Existe uma relação estreita entre cura e salvação. A cura é um sinal de que Deus salva o ser humano (Cf. Is 53, 4). Para isso analisemos estes dois textos bíblicos:

 “Porque, se confessares com tua boca que Jesus é Senhor e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Rm 19, 9);

 “Em todos os lugares onde [Jesus] entrava, nos povoados, nas cidades ou nos campos, colocavam os doentes nas praças, rogando, que lhes permitisse ao menos tocar na orla do seu manto. E todos os que o tocavam eram salvos” (Mc 6, 56).

OBS.: Nos dois trechos, embora falando de realidades totalmente diferentes, – a primeira da salvação eterna, a segunda de uma cura física – as palavras gregas utilizadas são derivadas do mesmo verbo(salvar).

ATITUDES NEGATIVAS RELATIVAS À ORAÇÃO POR CURA E LIBERTAÇÃO


 Confundir oração de cura e libertação com curandeirismo;

 Desconfiar da graça de Deus;

 Não se preparar pela vigilância e a oração;

 Achar que a doença é uma cruz dada por Deus;

 Achar que por ter fé não precisa ser curado;

 Pensar que só quem pode rezar é quem é santo;

 Dizer que não precisa rezar porque existe a ciência;

 Recusar recorrer à medicina;

 Viver em um ambiente averso a Deus.



MANDAMENTOS DA CURA


1. Crer que Deus quer me curar.

2. Confiar o amor de Jesus.

3. Entregar-se, abandonar-se à vontade Deus inteiramente.

4. Receber os sacramentos.

5. Orar freqüentemente uns pelos outros.

6. Não ter medo de impor as mãos.

7. Pedir perdão e perdoar também.

8. Orar pelos que o ofenderam.

9. Pedir a cura ao Pai em nome de Jesus ou diretamente a Jesus.

10. Pedir a intercessão poderosa da Virgem Maria, dos anjos e dos santos.

11. Crer a Palavra de Deus, independentemente do que pareça estar acontecendo.

12. Devemos louvar de agradecer freqüentemente para que a cura aconteça.

13. Devemos também nos apropriar das curas recebidas.