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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MARIA, MÃE DE DEUS

"Maria: a mulher que acolheu Jesus em si e o deu à luz para toda a a família humana"


A homilia de Bento XVI no primeiro dia do ano

CIDADE DO VATICANO, domingo, 01 de janeiro de 2012(ZENIT.org) - Apresentamos a Homilia do Santo Padre Bento XVI, proclamada neste primeiro domingo de 2012, na Basílica de São Pedro, durante a Missa da Solenidade de Maria Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz.
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No primeiro dia do ano, a liturgia faz ressoar em toda a Igreja espalhada pelo mundo, uma antiga benção sacerdotal, que escutamos na primeira leitura. “O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça resplandecer para ti a sua face e te dê a graça. O Senhor volte para ti o seu rosto e te conceda a paz” (Nm 6, 24-26). Essa benção foi confiada por Deus através de Moisés, a Araão e aos seus filhos, isto é, aos sacerdotes do povo de Israel. È um triplice desejo pleno de paz, que promana da repetição do nome de Deus, do Senhor e da imagem do seu rosto. De fato, para sermos abençoados precisamos estar na presença de Deus, receber sobre nós o seu Nome e permanecer no raio de luz que parte do seu rosto, no espaço iluminado pelo seu olhar, que difunde graça e paz.
Essa é a experiência feita pelos pastores de Belém, que aparecem ainda no Evangelho de hoje. Eles fizeram a experiência de estar na presença de Deus e da sua benção, não na sala de um majestoso palácio, na presença de um grande soberano, mas sim em um estábulo, diante de um menino colocado em uma manjedoura. Exatamente daquele Menino irradia uma nova luz, que resplandece no escuro da noite, como podemos ver em tantas pinturas que reproduzem a natividade de Cristo. É dEle que vem a benção: do seu nome – Jesus, que significa 'Deus Salva' - e do seu rosto humano, no qual Deus, o Onipotente Senhor do céu e da terra quis encarnar-se, esconder a sua glória sob o véu da nossa carne, para revelar-nos plenamente a sua bondade

A primeira a ser preenchida por essa benção foi Maria, a Virgem, esposa de José, que Deus escolheu desde o primeiro instante da sua existência para ser a mãe do seu Filho feito homem. Ela é a bendita entre as mulheres (Lc 1,42) – como a saúda Santa isabel. Toda a sua vida está na luz do Senhor, no raio da ação do nome e do rosto de Deus encarnado em Jesus, o fruto bendito do seu ventre. Assim a apresenta o Evangelho de Lucas: toda disposta a guardar e meditar no seu coração todas as coisas referentes ao seu filho Jesus (cfr Lc 2, 19.51). O mistério da sua divina maternidade, que hoje celebramos, contém em medida superabundante aquele dom da graça que toda maternidade humana traz em si, tanto que a fecundidade do ventre sempre foi associada à benção de Deus. A Mãe de Deus é a primeira abençoada e é Ela que traz a benção, é a mulher que acolheu Jesus em si e o deu à luz para toda a a família humana. Como reza a Liturgia: “sempre intacta na sua glória virginal, irradiou sobre o mundo a luz eterna, Jesus Cristo nosso Senhor” (Prefácio da Beata Virgem maria 1)
Maria é mãe e modelo da Igreja, que acolhe na fé a divina Palavra e se oferece a Deus como “terra boa” na qual Ele pode continuar a cumprir o seu mistério de salvação. Também a Igreja participa ao mistério da divina maternidade mediante a pregação, que espalha no mundo a semente do Evangelho e mediante os Sacramentos que comunicam aos homem a graça e a vida divina. Em particular no sacramento do Batismo, a Igreja vive essa maternidade, quando gera os filhos de Deus da água e do Espírito Santo, o qual em cada um exclama: “Abbá! Pai! (Gal 4,6). Como Maria, a Igreja é mediadora da benção de Deus para o mundo: a recebe acolhendo Jesus e a transmite levando Jesus. É Ele a misericórdia e a paz que o mundo por si não pode dar-se e da qual tem necessidade sempre, como ou mais que o pão.
Caros amigos, a paz, no seu sentido pleno e mais alto é a soma e a síntese de todas as bençãos. Por isto, quando duas pessoas amigas se encontram, se saúdam desejando reciprocamente a paz. Também a Igreja, no primeiro dia do ano invoca de modo especial esse bem supremo e o faz, como a Virgem Maria, mostrando a todos Jesus, porque como afirma o apóstolo Paulo, “Ele é a nossa paz” (Ef 2, 14) e ao mesmo tempo é a via através da qual os homens e os povos podem alcançar essa meta, a qual todos aspiramos. Levando, portanto, no coração este profundo desejo, tenho o prazer de acolher e saudar todos vocês, que no dia em que se celebra a XLV Jornada Mundial da Paz vieram à Basílica de São Pedro: os Senhor Cardeais, os embaixadores de tantos países amigos, que mais que nunca nesta ocasião, partilham comigo e com a Santa Sé a vontade de renovar o empenho pela promoção da paz no mundo; O presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, que com o secretário e os colaboradores trabalham em modo especial por esta finalidade; os outros prelados e autoridades presentes; os representantes de Associações e Movimentos eclesiais e todos vós, irmãos e irmãs, em particular aqueles que entre vós trabalham no campo da educação dos jovens. De fato – como sabeis – a prospectiva educativa é aquela que enfatizei na minha mensagem deste ano.
“Educar os jovens à justiça e à paz” é objetivo que compreende todas as gerações, e graças a Deus, a família humana, depois das tragédias das duas grandes guerras mundiais, mostrou-se cada vez mais consciente, como atestam, de uma parte, declarações de iniciativas internacionais, e de outra, a afirmação dos próprios jovens, nas últimas décadas, de tantas e diversas formas de empenho social neste campo. Para a comunidade eclesial educar à paz faz parte da missão recebida de Cristo, faz parte integrante da evangelização porque o Evangelho de Cristo também é Evangelho de Justiça e Paz. Mas a Igreja, nos últimos tempos, se fez intérprete de uma exigência que envolve todas as consciências mais sensíveis e responsáveis pelo futuro da humanidade: a exigência de responder a um desafio decisivo que é o desafio educativo. Por que “desafio”? Pelo menos por dois motivos: em primeiro lugar, porque na era atual, fortemente caracterizada pela mentalidade tecnológica, querer educar e não somente instruir é uma escolha; em segundo lugar, porque a cultura relativista coloca uma questão radical: tem sentido ainda educar? Educar para quê?
Naturalmente não podemos ir de encontro a essas questões a fundo, as quais procurei responder em outras ocasiões. Gostaria ao invés disso, destacar que, diante das sombras que hoje obscuram o horizonte no mundo, assumir a responsabilidade de educar os jovens à consciência da verdade, aos valores fundamentais da existência, às virtudes intelectuais, teologais e morais, significa olhar para a futuro com esperança. Nesse empenho por uma educação integral, entra também a formação à justiça e à paz. Os rapazes e moças de hoje crescem em um mundo que se tornou, por assim dizer, mais pequeno, onde os contatos entre as diferentes culturas e tradições, mesmo que muitas vezes não de forma direta, são constantes. Para eles, hoje, mais que nunca, é indispensável aprender o valor e o método da convivência pacífica, do respeito recíproco, do diálogo e da compreensão. Os jovens são por natureza abertos a essas atitudes, mas exatamente a realidade social na qual crescem podem levá-los a pensar e a agir em modo oposto, de modo intolerante e violento.
Somente uma sólida educação da consciência deles pode coloca-los à parte desses riscos e torná-los capazes de lutar sempre e contando somente com a força da verdade e do bem. Essa educação parte da família e se desenvolve na escola e nas outras experiências formativas. Se trata essencialmente de ajudar as crianças, os jovens, os adolescentes, a desenvolver uma personalidade que una um profundo sentido de justiça com o respeito do outro, com a capacidade de enfrentar os conflitos sem prepotência, com a força interior de testemunhar o bem também quando custa sacrifício, com o perdão e a reconciliação. Assim poderão tornar homens e mulheres verdadeiramente pacíficos e construtores da paz.
Nesta obra educativa voltada para as novas gerações, uma responsabilidade particular cabe também às comunidades religiosas. Todo itinerário de autêntica formação religiosa acompanha a pessoa, desde os primeiros anos de idade, a conhecer Deus, a amar e a fazer a sua vontade. Deus é amor, é justo e pacífico, e quem quer honrá-lo deve antes de mais nada comportar-se como um filho que segue o exemplo do Pai. Um Salmo afirma: “O Senhor cumpre coisas justas, defende os direitos de todos os oprimidos...Misericordioso e piedoso é o Senhor, lento para a ira e grande no amor” (Sal 103, 6.8). Em Deus justiça e misericórdia convivem perfeitamente, como Jesus nos demonstrou com o testemunho da sua vida. Em Jesus 'amor e verdade' se encontraram, 'justiça e paz' se uniram (cfr Sal 85, 12.13). Deus nos falou no seu Filho Jesus. Escutamos o que diz Deus: 'Ele anuncia a paz' (Sal 85,9). Jesus é uma via praticável, aberta a todos. É a via da paz. Hoje a Virgem Maria nos indica isso, nos mostra a Via: a sigamos! E vós, santa Mãe de Deus, acompanha-nos com a vossa proteção. Amém.
(CN Notícias)

domingo, 21 de agosto de 2011

O Sacramento da Eucaristia




Þ  Definição

A palavra eucaristia deriva da palavra grega eucharistén – “dar graças”. Portanto, eucaristia significa “ação de graças”. O contexto retoma a beraká judaica.
“O nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura.” (Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, N. 47).

O Santíssimo Sacramento eucarístico tem duas dimensões inseparáveis e complementares: é sacrifício e ceia.

Þ  Eucaristia Como Ceia

A refeição é de importância capital para o homem bíblico, visto ser um povo de economia basicamente agro-pecuária, que vivia em lugar de condições climáticas duras. Ela possui dois sentidos, sendo o segundo o que mais se destaca:
·         Felicidade
Os autores mencionam fartos cardápios com os quais ninguém se privou, um dia, de sonhar. É alegoria da era messiânica um banquete de manjares e vinho novo (Is 25, 6; Jr 31, 12.14).
·         Unidade
É à mesa que a célula familiar toma consciência de si mesma. No entanto, a família não é o único grupo que se reúne e se encontra à mesa; outras comunidades humanas fazem a mesma experiência (Sl 128, 3; Jz 1, 7; 1Sm 9, 22-24).
Devemos ir mais longe ainda. Visto que, o ato de comer se acha estreitamente ligado à subsistência do indivíduo e do grupo, este gesto se reveste de um significado que ultrapassa seu alcance biológico e até social. A refeição acaba finalmente por adquirir uma dimensão metafísica e um valor religioso.
O pão é necessário à vida; o homem depende, pois, de seu alimento, mas também daquele que o proporciona. E a relação entre o pão e a palavra é tão estreita no Antigo Testamento porque, obrigado pela natureza a receber o pão que Deus lhe dá, o homem toma consciência de sua dependência e se torna disposto a aceitar Palavra.

Þ  Eucaristia Como Sacrifício

Atualmente a maioria dos exegetas estão convencidos de que a festa da Páscoa não começou de modo absoluto no Êxodo, mas que, nesses momentos históricos, revesti-se de uma nova significação. Existia provavelmente, no tempo dos patriarcas, uma festa que já se chamava pesah: quando os nômades, na primavera, se preparavam para deixar seus acampamentos em busca de outras pastagens, ofereciam às divindades um sacrifício para pedir a fecundidade para os rebanhos e, de modo mais geral, a proteção contra os poderes “exterminadores” simbolizados pelo “flagelo destruidor” (Ex 12,13). Os seres mais ameaçados eram os recém nascidos que, pela primeira vez na vida, empreendiam uma viagem uma tanto arriscada. Então, para conjurar a violência ameaçadora, separava-se um desses animais nascidos a pouco, a fim de lhe conferir o poder sagrado, e depois o chefe da família o imolava. O sangue do animal servia de sinal de reconhecimento para o flagelo destruidor, que poupava as tendas marcadas com o sangue do animal: essa talvez, a origem da palavra “páscoa”; com efeito, em hebraico existe um verbo pesah que significa “mancar”, portanto, “saltar” por cima das tendas e “poupar”.
Toda a força libertadora, salvífica e espiritual da antiga páscoa judaica passaram à páscoa cristã que na Eucaristia encontra sua plena realização, mas com a novidade fundadora e componente básico, o próprio Cristo, o qual lhe deu um novo significado, assumindo e continuado o anterior. O rito pascal judeu prolongava no tempo a páscoa do Êxodo que era a libertação de Israel e sua eleição como povo santo.
Agora, a Igreja vê no sacrifício pascal de Cristo a plena e total libertação do homem, sua redenção da escravidão, sua elevação à santidade. A Igreja, perpetuando no tempo essa páscoa, antiga e nova, recolheu todo seu potencial libertador, oferecendo-o a todo homem. E como a páscoa judaica consistia em um rito, e a cada ano se faz memorial dela, assim ocorre com a páscoa: morte-ressureição de Cristo, ritualizada sacramentalmente em nossa Eucaristia como sacrifício perpétuo.

Þ  O Ágape

O relato mais antigo que possuímos da ceia do Senhor, é a perícope paulina 1Cor 11, 17-34. Um texto bem específico de uma situação particular, mas que nos pode dar uma visão segura de como eram a “fração do pão” na era apostólica. Muitas vezes no Antigo Testamento se denuncia um culto invalidado pela situação de injustiça dos participantes (Is 58 denuncia o jejum; Jr 7 a transformação do Templo em “covil de ladrões”) e de modo semelhante, a falta de caridade invalida a eucaristia cristã. Pode até haver sim, uma reunião comunitária, mas não há “banquete do Senhor”.
A “ceia do Senhor”, celebrada nas casas particulares e apropriadas, costumava ser precedida de uma ceia em comum, à qual os bastados levavam suas provisões. Sem esperar que chegassem os mais necessitados e atrasados, comiam e bebiam, de modo que aos pobres restavam as sobras. Nesse ponto, com uns satisfeitos e até ébrios e outros famintos, procediam-se à celebração eucarística. E esta era ocasião de descriminação entre pobres e abastados, com fome e humilhação dos necessitados. Uma divisão grave, na qual culminavam as facções e processos mencionados anteriormente nesta epístola (1, 10-17; 6, 1-11). Seria melhor cada um comer em sua casa e depois reunir-se para a liturgia (melhor ainda esperar e partilhar).

Þ  Conclusão

“Enquanto durar a sua peregrinação aqui na terra, a Igreja é chamada a conservar e promover tanto a comunhão com a Trindade divina como a comunhão entre os fieis. Para isso, possui a Palavra e os sacramentos, sobretudo a Eucaristia; desta “vive e cresce”, e ao mesmo tempo exprime-se nela. Não foi sem razão que o termo comunhão se tornou um dos nomes específicos deste sacramento excelso.” (Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia de João Paulo II, N.34, pág. 47).

Ir Franklins Marques Torres, NJ (noviço)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vaticano II: ruptura ou continuidade?

Desenvolveu-se a impressão que a liturgia seja “feita”, que não seja algo que existe antes de nós, algo que nos é “dado”, mas que, ao invés, depende das nossas decisões (Observação: A observação de Ratzinger é perfeita. Hoje, entrou na consciência de muitas comunidades a idéia totalmente errada segundo a qual a liturgia é obra da nossa criatividade e tem-se que inventar algo para torná-la atraente. Para muita gente, para muitos ministros ordenados, se não se improvisar, se não se mudar alguma fórmula em nome da criatividade, se não se inventar alguma moda, não se está celebrando de verdade!).
Deste fato decorre, conseqüentemente, que (...) cada comunidade queira dar-se uma própria liturgia. Mas, quando a liturgia é algo que cada um faz por si, então ela já não nos dá aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o Mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida.

Para a vida da Igreja, é dramaticamente urgente uma renovação da consciência litúrgica, uma reconciliação litúrgica, que volte a reconhecer a unidade da história da liturgia e compreenda o Vaticano II não como ruptura, mas como momento evolutivo. Estou convencido que a crise eclesial na qual nos encontramos hoje depende em grande parte do desmantelamento da liturgia, que muitas vezes é concebida como se Deus não existisse, como se nela não importasse mais se Deus exista, se nos fala e nos escuta... Então, a comunidade celebra somente a si mesma, se quem isso valha mais a pena . – Do livro da Tag Tessore, Introduzione a Ratzinger (em português: Bento XVI, Ed. Claridade).

A LITURGIA: CENTRO DA VIDA MONÁSTICA.

Pe. Alberico Altermatt O. Cist.
Hauterive – Eschenbach

Segundo a Regra de nosso pai São Bento (nascido entre 560/575), o dia-a-dia monástico comporta essencialmente três ocupações: a oração (liturgia/ofício divino): a lectio divina e o trabalho. A Liturgia tem, na Regra de São Bento, um lugar de preferência. Entre 73 capítulos da Regra, conta-se 13 (de 8 a 20) que tratam exclusivamente da celebração da liturgia (ofício divino) – precisamente sobre a celebração da oração das Horas – e isto se faz nos mínimos detalhes. Como fundamento se põe este princípio: Portanto nada se anteponha ao Ofício Divino (nihil operi Dei praeponatur) (RB. – 3,3). De fato, é a Liturgia que dá ao dia-a-dia monástico sua estrutura e seu ritmo. Isto explica que se chegou a designar o monge/a monja como homo liturgicus.

O beneditino italiano Dom Giuseppe Anelli, num artigo sobre A vida monástica como existência teológica, escreve o seguinte: A vida monástica apareceu como um ato de adoração; o monge é “um ser que abre o seu coração para Deus” (Martin Buber, “que não se aparta do dever de amar a Deus” (Pascal) “que não se afasta do difícil Trabalho de ser cristão’ (Kierkegaard). Esta existência teológica do homem que vive na fé e pela graça, é necessariamente litúrgica e de louvor (serviço de devoção – RB.-18,24 o serviço a que eles se têm dedicado), é sua vocação específica. Sois tu, Senhor, que nos leva à alegria louvando-te porque tu nos conduziste a ti, pois nosso coração não descansa enquanto não encontrar repouso em ti (Sto. Agostinho, Confissões, 1.1,1).

A liturgia como manifestação autêntica da Igreja e da comunidade monástica.

Seria muito interessante agora pôr, cada um a si mesmo, a questão seguinte: O que é a liturgia? Temo que alguns não possam dar prontamente uma definição da liturgia que expresse verdadeiramente o essencial e que corresponda aos critérios atuais da teologia e da ciência litúrgica (porque a liturgia é, hoje em dia, uma verdadeira ciência!).

Por quê? Porque todos nós corremos o risco de fazermos talvez uma idéia demasiadamente limitada do que é a liturgia. Conservamos dela uma idéia demasiadamente reduzida (estética). Somos tentados facilmente em confundir a liturgia com o culto, com os ritos, as cerimônias. Mas isto é apenas um aspecto da liturgia! O movimento litúrgico do século XX e o Concílio Vaticano II (1962-65) compreenderam e definiram de uma maneira nova a natureza, o espírito e o significado da liturgia. A Constituição Sacrossantum Concilium (A sagrada Liturgia), promulgada no ano 1963, pode ser considerada como o documento mais belo e a mais completa doutrina que a Igreja já publicou sobre a liturgia em seus 2000 anos de história.

Definição da liturgia segundo a Constituição sobre a Liturgia.

O termo “liturgia” designa uma noção bastante rica e completa; por outro lado, não tinha sido adotado no Ocidente até o fim do século XVIII. De origem grega, a palavra “leitourgia” é formada pelos vocábulos laos / leiton = povo, e ergon ( em latim = opus) = obra de serviço. Pode ter outros significados: “obra pública”, obra do povo (genitivo subjetivo) ou também “obra para o povo” (genitivo objetivo). No terreno profano, “leitourgia” significava um serviço público, uma “prestação”; era também utilizado para uma celebração religiosa concernente a todo o povo. No uso bíblico (judaísmo helenístico, Setenta), o termo designava o culto e o serviço do tempo. Chegou a ser muito depressa, na tradição cristã, o termo próprio para a assembléia do serviço divino ou a celebração do serviço divino (na Igreja do oriente tem, atualmente, o sentido restrito e preciso de celebração eucarística).

No nº 7 da Constituição sobre a Liturgia, o Concílio Vaticano II descreve a liturgia como um diálogo, um intercâmbio vital entre Deus e o homem, como a uma ação sagrada (actio sacra) e como uma obra (exercício). Neste diálogo comunicativo, a iniciativa vem sempre de Deus: é Deus que se dirige ao homem, ou, como se diz em teologia, o aspecto de catábase, o aspecto soteriológico da liturgia. Em resumo, trata-se da santificação e da salvação do homem. Só depois vem a linha ascendente (de anábase, de latria): até o Concílio Vaticano II, esta linha foi muito acentuada e às vezes talvez ainda o seja. O aspecto de anábase ou de latria, é a liturgia enquanto louvor, intercessão, celebração, enfim, como glorificação de Deus. Mas é preciso, para começar, a “descida” de Deus (catábase), para permitir a “subida” do homem (anábase). Em outros termos: antes que o homem faça alguma coisa para Deus, é Deus quem faz algo pelo homem. A liturgia, nesta perspectiva nova e mais universal, é a Obra de Deus (em latim Opus Dei) no homem, para o homem (genitivo subjetivo) e a Obra do homem para Deus (em latim Opus Dei, mas desta vez compreendida como genitivo objetivo).

A primeira iniciativa na obra: o diálogo da salvação vem sempre de Deus (1). A intervenção salvadora de Deus desperta no homem um eco. O homem é tocado por este e esta experiência o vincula novamente a seus irmãos (2). Beneficiados todos os homens pela salvação de Deus, eles respondem por meio do louvor e da ação de graças (3). Nós reencontramos esta dinâmica e esta concatenação nos três tios de textos constitutivos da liturgia:

• Leituras: Deus se dirige ao homem em sua palavra (1)

• Cantos Reação do povo tocado pela Palavra (2)

• Orações Resposta de louvor, ação de graças, adoração (3)

Estas duas orientações complementares da liturgia: linha descendente (santificação do homem) e linha ascendente (glorificação de Deus) pertencem, depois do último Concílio, à definição fundamental da Liturgia, que se descreve, no nº. 7 da Sacrossanctum Concilium (sobre A Sagrada Liturgia), deste modo: A liturgia é o exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo, exercício no qual a santificação do homem (linha descendente) está significada por alguns sinais sensíveis e se realiza de uma maneira própria em cada um deles, na qual o culto público integral (linha ascendente) é exercida pelo Corpo místico de Jesus Cristo, ou seja, pela Cabeça e pelos membros.

Em conseqüência, toda celebração litúrgica, enquanto obra (opus) de Cristo sacerdote e de seu Corpo que é a Igreja, é a ação sagrada (actio sacra) por excelência, da qual nenhuma outra ação (actio) da Igreja pode esperar a eficácia com o mesmo título nem no mesmo grau (n.º7).

Na Liturgia das Horas, a Igreja, exercendo “sem cessar” (1 Ts 5,17) a função sacerdotal de sua Cabeça, oferece a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que glorificam seu nome (cf. Hb 13,15)(IGLH n° 15).

A obra da salvação realizada por Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, é o fundamento e a fonte da liturgia. Sem dúvida, a liturgia é o cume a que tende a ação da Igreja, e ao mesmo tempo, a fonte donde procede toda sua força (SC 10).

A liturgia e seu lugar central na Regra de São Bento.

S. Bento utiliza, para a liturgia, deferentes termos e por isso vemos que, na Regra de São Bento, quase unicamente é a liturgia das horas (liturgia horarum) que entra em questão, já que a celebração diária da Eucaristia, porém, não era conhecida.

OBS.: Se aceita historicamente que o monaquismo primitivo e os mosteiros do tempo de São Bento não conheciam a celebração diária da Missa. A Eucaristia só era celebrada no Domingo. Durante a semana, uma curta cerimônia de Comunhão acontecia logo depois da Sexta: o Abade distribuía aos monges o Corpo e o Sangue de Cristo. A Missa conventual diária foi introduzida nos mosteiros na época carolíngia (clericalização do monaquismo). No ano 1000, essa prática já era corrente e os primeiros Cistercienses não se atreveram romper esta tradição.

O termo opus Dei, que São Bento recebeu da tradição patrística, tem um duplo conteúdo:

a) A obra (o serviço) que Deus realiza no homem, para o homem (genitivo subjetivo);

b) A obra (o serviço) que o homem dirige para Deus, diante de Deus (genitivo objetivo).

É deste modo que o termo opus Dei corresponde exatamente à dupla orientação da liturgia, tal como a definiu o Concílio Vaticano II: a linha descendente (ação de Deus) e a linha ascendente (resposta e ação do homem). Na antiga tradição da Igreja, opus Dei designava o conjunto da liturgia e igualmente toda a existência cristã e monástica que tem seu centro unificador na oração e no louvor de Deus. Infelizmente, com o tempo, o sentido do termo se restringiu até não designar mais que a liturgia das horas. Pelo contrário, nosso pai São Bento, na célebre máxima de RB 43,3: “Nada se anteponha ao Ofício Divino” (Nihil operi Dei praeponatur), compreende, entretanto, um opus Dei num sentido muito mais extenso e teológico.